O Poder da Voz de Ella Fitzgerald e O Gesto Amigo/Político de Marilyn Monroe

Ella Fitzgerald e Marilyn Monroe em Hollywood; 1954. (Imagem: Reprodução/Internet)

No início da década de 1950, a voz de Ella Fitzgerald (1917-1996) foi usada como recurso para melhorar o canto de Marilyn Monroe (1926-1962). Em 1955, Marilyn impulsiona o curso da carreira de Ella durante o período de segregação racial. Música une a “Lady da Canção” com a “Deusa Símbolo Sexual”.

Muito embora sejam duas das maiores personalidades do mundo do entretenimento do século 20, é difícil imaginar algo em comum entre Ella e Marilyn. Durante os anos 50 elas poderiam facilmente nunca terem desenvolvido uma relação de amizade: uma negra e a outra branca em um Estados Unidos ainda bastante segregado, inclusive no mundo das artes.

Ella e Marilyn tinham algo muito forte em comum. Elas tiveram infâncias difíceis. Marilyn nunca conheceu seu pai e, após sua mãe ser internada por problemas mentais, ela passou por vários lares substitutos e viveu em um orfanato. Ella basicamente foi uma menina de rua que ajudava sua família entregando mensagens para o “jogo de números” (algo bem similar ao “jogo do bicho”), trabalhou como vigia de um bordel, e depois da morte de sua mãe ela foi colocada em um reformatório do qual ela fugiu e voltou para a rua.

Independentemente de seu reconhecimento e popularidade nos Estados Unidos, Ella Fitzgerald como musicista negra, ainda nos anos 50 estava limitada a se apresentar em pequenos clubes de jazz, mas sempre usando a porta dos fundos. Este tratamento dado aos músicos negros era o mesmo nos restaurantes e nos hotéis. Músicos negros não podiam se apresentar nas grandes casas noturnas. Nem mesmo Ella Fitzgerald. Mas para Ella isso iria mudar na metade daquela década.

Em 1941, a casa noturna Mocambo é inaugurada em West Hollywood e imediatamente se tornou um sucesso. Foi lá que, em 1943, Frank Sinatra faz sua grande estreia em Los Angeles. Nos anos 50, a Mocambo se torna um dos locais mais badalados de Hollywood, sendo frequentada por Clark Gable, Charlie Chaplin, Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Lana Turner, Elizabeth Taylor e vários outros famosos. Artistas negros, no entanto, não eram permitidos a se apresentarem naquela casa noturna. Nem mesmo a grande Ella Fitzgerald. E é em 1955, que Marilyn entra em cena.

Ella uma vez revelou:

Eu devo a Marilyn Monroe uma verdadeira dívida... foi por causa dela que eu me apresentei na Mocambo, uma casa noturna muito popular nos anos 50. Ela ligou pessoalmente para o dono da Mocambo e lhe disse que ela queria que ele me agendasse imediatamente, e se ele o fizesse ela estaria na mesa da frente todas as noites [que eu me apresentasse]. Ela disse a ele—e isso era verdade, devido ao status de superstar da Marilyn—que a imprensa enlouqueceria. O dono da Mocambo disse que sim, e Marilyn estava lá, na mesa da frente, todas as noites. A imprensa delirou. Depois disso, eu nunca tive que cantar em pequenos clubes de jazz novamente. Ela era uma mulher incomum—um pouco à frente de seu tempo. E ela não sabia disso.

Na realidade, muito embora houvesse uma barreira racial vigente nos EUA, a Mocambo já havia agendado outros artistas negros antes de Ella Fitzgerald. Bem, esta é uma outra versão para aquele episódio apresentada por Michelle Morgan em seu livro de 2012, “Marilyn Monroe: Private and Undisclosed” (“Marilyn Monroe: Confidencial e Não Revelada”), onde ela explica:

“… uma variedade de artistas negros já haviam se apresentado [na Mocambo] bem antes de Ella, incluindo Dorothy Dandridge em 1950 e Eartha Kitt em 1953. A verdade é que embora [o dono e gerente] Charlie Morrison encorajasse e aplaudisse artistas de todos as raças em seu clube, ele não via Ella Fitzgerald como sendo glamourosa o suficiente para atrair a multidão. Coube a Marilyn mudar a opinião dele, e uma vez tendo posto os pés na Mocambo, Ella pôde se apresentar naquela casa noturna, com grande sucesso, em várias outras ocasiões”.

É complicado afirmar se Ella não conseguia se apresentar na Mocambo por uma questão racial ou por uma questão de falta de glamour—ainda que seja fácil pensar no critério glamour como uma forma de discriminação. Mas é possível também pensar na barreira racial ditando quem poderia, ou não, ser considerada “glamourosa o suficiente”, valendo notar que Dorothy Dandridge e Eartha Kitt foram duas das primeiras estrelas negras-estadunidenses a serem referidas como “símbolo sexual” em Hollywood.

Se o caso foi baseado em glamour, Marilyn fez uma intervenção de forte caráter feminista na Mocambo ao posicionar talento acima dos quesitos beleza e apelo sexual, algo extremamente ligado aos próprios conflitos internos da atriz. (No início de sua carreira, Marilyn participou de duas produções teatrais e a primeira delas, de 1947, tinha o título “Glamour Preferred”, que em português significa “preferência dada ao glamour”.) Em 1956, durante a coletiva de imprensa anunciando a produção de The Prince and The Showgirl (1957) (“O Príncipe Encantado”), o primeiro e único filme da Marilyn Productions (ela foi a segunda atriz a ter sua própria produtora cinematográfica em Hollywood), Laurence Olivier, considerado o maior ator de todos os tempos e que co-estrelou e dirigiu o filme, foi recebido como realeza. Marilyn não pareceu tão certa quanto qual seria a sua recepção:

Algumas pessoas têm sido indelicadas. Se eu disser que eu quero crescer como atriz, eles olham para o meu corpo. Se eu disser que quero desenvolver, aprender meu ofício, eles riem. De alguma maneira elas não esperam que eu seja séria sobre o meu trabalho. Eu sou mais séria sobre isso do que qualquer outra coisa. Mas as pessoas insistem em pensar que eu tenho pretensões de me tornar em uma Benrhardt ou uma Duse—que eu quero interpretar Lady Macbeth. E o que eles vão dizer quando eu trabalhar com Sir Laurence, eu não sei.

Se Marilyn também devia um grande favor a Ella é um pouco difícil dizer, mas podemos citar o fato de que Marilyn era totalmente a favor da integração racial. Também, pouco antes do episódio da Mocambo, a já conhecida Marilyn Monroe precisou se preparar vocalmente para atuar e cantar em dois filmes: Gentleman Prefer Blondes (“Os Homens Preferem as Loiras”) (1953), e There’s No Business Like Show Business (“O Mundo da Fantasia”) (1954).


Marilyn Monroe e Hal Schaefer em 1953 (aprox.). (Imagem: Reprodução/Internet)

O músico Hal Schaefer recebeu a tarefa de transformar Marylin em cantora, já que a atriz estava comprometida em não somente ser um símbolo sexual que cantava. Ela queria mais e assim suas sessões com Hal foram de grande intensidade.

Em 2010 Hal Schaefer lembrou daqueles dias, e diz que pediu a Marilyn para “ouvir e tentar imitar a voz de Ella Fitzgerald”:

Ella se tornou a mais forte influência vocal em Marilyn. Depois que Marilyn ficou completamente familiarizada com o canto de Ella, ela mesma começou a ampliar seus recursos ouvindo outros cantores que ela achava que poderiam ser uma influência positiva.

Hal aconselhou Marilyn a estudar a música de Ella Fitzgerald e diz que a influência mais importante na arte vocal de Marilyn foi o disco Ella Sings Gershwin (“Ella Canta Gershwin”), no qual Ella é acompanhada somente pelo piano de Ellis Larkins. “Marilyn tinha um problema para cantar no tom, mas tudo mais que ela fazia era maravilhoso. (…) Eu disse a ela para ouvir este disco porque nunca houve uma cantora mais afinada do que Ella”. Hal também diz, “Eu mandei ela ouvir o disco 100 vezes”.


 
Ella canta Someone to Watch Over Me (“Alguém Que Tome Conta de Mim”), faixa número 1 do disco ‘Ella Sings Gershwin’ (1950).


Talvez tenha sido a intensa repetição daquele disco de Ella que levou a atriz a se tornar uma grande fã da cantora. E as duas tornaram-se amigas. Em uma gravação da canção She Acts Like a Woman Should (“Ela Age da Maneira Que Uma Mulher Deveria”), de 1954, é possível notar a influência de Ella na interpretação de Marilyn—principalmente no tom grave que ela emprega no final de algumas frases.




A amizade entre as duas artistas para alguns ainda pode parecer obra ficcionalizada pois, de uma certa forma, o telefonema de Marilyn para o dono da Mocambo põe abaixo o mito da atriz como uma figura fútil. Por outro lado, o episódio força muita gente a aceitar o fato de que uma cantora negra, mesmo do porte artístico de Ella, tenha sido capaz de mobilizar a “sexual” Marilyn Monroe.

Desde o início de sua carreira aos 15 anos de idade, Ella Fitzgerald sempre foi reconhecida por seu inegável grande talento, e hoje considerada um dos gênios do jazz. Marilyn Monroe, ao contrário, até bem pouco tempo atrás era publicamente reconhecida somente como um símbolo sexual que interpretava o papel da loura burrinha dentro e fora das telas.

Contudo, as últimas décadas testemunharam um tipo de releitura da pessoa Marilyn, revelando uma mulher mais fascinante e complexa do que aquela construída por Hollywood e pela imprensa—como o documentário, “Love, Marilyn” (2012). Na verdade, o eterno símbolo sexual foi uma mulher muito inteligente, sedenta por conhecimento e de posturas políticas lúcidas, e que hoje passa a ser vista como uma atriz de talento na comédia e no drama, e também como uma cantora com uma marca única.

Lee Strasberg, o diretor e professor da famosa e renomada escola de atuação Actors Studio—onde já estrela de Hollywood Marilyn buscou melhorar sua atuação—uma vez comentou, “Eu tenho trabalhado com centenas e centenas de atores e atrizes, e há somente dois que se destacam bem acima do resto. O primeiro é Marlon Brando, e a segunda é Marilyn Monroe”. Em um artigo do The New York Times, o crítico de jazz Gary Giddins fez sua própria reavaliação das habilidades musicais de Marilyn e se disse impressionado:

Ela tinha o mesmo problema de Fred Astaire. Ambos eram cantores maravilhosos, mas você não pensa neles como cantores. Grande parte da habilidade vocal de Monroe está na maneira com que ela apresenta a canção. Você espera que ela seja de segunda classe, mas ela nunca é.

Suas visões do mundo e suas visões políticas podem surpreender muita gente. Por exemplo, falando sobre a atriz Jane Russel, cristã renascida e co-estrela de Monroe no filme “Os Homens Preferem As Loiras” (1953), Marilyn disse: “A Jane tentou me converter [a religião] e eu tentei introduzi-la a Freud”. Durante a Era McCarthy, a ficha de Marilyn no FBI dizia: “Positivamente e conscientemente muito esquerdista”. A filha do psiquiatra de Marilyn, disse uma vez que a atriz era “entusiasta sobre igualdade de direitos, direitos dos negros, direitos dos pobres. Ela se identificava fortemente com os trabalhadores”.

A atriz lutou para se livrar da imagem que ela teve que interpretar, mas muitas vezes sem sucesso, já que suas visões políticas eram consideradas inapropriadas pela imprensa. Patricia Newcomb, amiga e secretária de Marilyn, relembra que a atriz, sem sucesso, implorou a um repórter que finalizasse um artigo com estas palavras:

O que eu realmente quero dizer: O que o mundo realmente precisa é de um sentimento fraterno. Todo mundo: estrelas, trabalhadores, negros, judeus, árabes. Somos todos irmãos.
Por favor, não me faça parecer uma piada. Termine a entrevista com aquilo que eu acredito.

Ella Fitzgerald teve uma carreira de 59 anos marcada por sucessos e por um enorme reconhecimento dos críticos. Em 1958, Ella se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Prêmio Grammy—e no total ganhou 13 daqueles prêmios. Em 1955, o produtor e agente musical Norman Granz, criou a Verve Records para consolidar suas atividades sob uma só gravadora e também para promover uma artista em particular: Ella Fitzgerald.

Norman Granz conseguiu transformar Ella em uma das maiores cantoras do século 20, mas também a usou como um trunfo para desmantelar a política de segregação racial em alguns dos maiores locais de apresentações musicais nos Estados Unidos. Ele dizia, “Vocês querem Ella? É platéia integrada racialmente ou não tem negócio!”

c&p

Fonte: Vintage Everyday; Groove Notes; “Marilyn Monroe: proto-feminist?”, The Guardian; Biography; Old Magazine Articles; Immortal Marilyn; The New York Times; PBS, American Masters; The Hollowverse: The religions and political views of the influentials; Democracy and Socialism; “Verve Records and the man who made jazz the sound of America”, The Guardian; Gizmodo; “Marilyn Monroe's Early Career”, How Stuff Works?; Marilyn Monroe: A Life of the Actress, Revised and Updated.

9 comentários:

  1. Excelente postagem, eu nem imaginava isso.

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  2. O povo é burro demais, marilyn interpretava papel de burra porque isso dava ibope mas isso não quer dizer que ela era assim, era apenas um papel e as pessoas não sabem diferenciar as coisas.

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  3. Muito bacana! Pra quem acha que ela não passou de uma loira sexy, acho válido a leitura :)

    Bianca

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  4. Esse post é perfeito. Não tem nada que não corresponda à realidade. Já sabia tudo sobre esse relacionamento entre as duas lendo em inglês. Nem sabia que existia alguma coisa em português. Muito bom!

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    1. É uma 'estória' que corre há muito tempo, mas também não achamos nada em português sobre o assunto.

      Obrigado pelo comentário!

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