A Escolha de Sterblitch: Humor Vulgar Vs. Maturidade Artística


A crítica negativa ao decadente personagem “Africano” poderá servir como um ritual de passagem da adolescência à fase adulta da carreira de Eduardo Sterblitch? Após se desculpar, esta é a próxima escolha que o ator deverá fazer.


Aqueles que ingressam na carreira das artes, logo no início descobrem que a “crítica” será uma parte constante das suas atividades profissionais. Quem entra em “cena” deve saber que nem tudo será aplausos e elogios, mas que é também através das críticas que se pode crescer como artista. Os que não desenvolvem a habilidade de lidar com as críticas, e de até mesmo aprender com elas, poderão estar fadados à eterna limitação artística.


Graças à Internet, hoje existem muito mais críticos do que antes. Muitos deles não se limitam a comentar somente o desempenho artístico ou a qualidade de uma produção. E é assim que se torna difícil ignorar o aumento da crítica social à área do entretenimento relacionada tanto à falta de profissionais negros nesta indústria quanto em relação à criação de temas e personagens caricatos e de representação estereotipada do negro—alvo de históricos abusos e constrangimentos.

É também difícil ignorar o fato de que a perpetuação de estereótipos racistas dos negros têm sido comum na área humorística. Um hoje recorrente exemplo desta prática é a personagem negra, sem dentes, que fala errado e que pede dinheiro nos trens, a Adelaide do programa Zorra Total, interpretada pelo ator Rodrigo Santanna—com seu rosto inapropriadamente pintado de preto. Mesmo sob inúmeras e duras críticas que duraram alguns anos, incluindo denúncia e investigação pela promotoria do Rio de Janeiro, Santanna deu continuidade aquela personagem.

Há também o recorrente exemplo de Danilo Gentili que, após fazer uma piada comparando negros a macacos, foi criticado por um jovem negro que se sentiu ofendido. O “humorista” ofereceu “bananas” para o que o crítico deixasse o assunto de lado. O caso foi levado a juízo; Gentili foi inocentado.

Ignorando uma realidade histórica de divisão de privilégios sociais, Santanna e Gentili pareceram considerar as críticas como inválidas.

Seria verdade afirmar que a população negra tem sido o alvo primário das representações ofensivas de cunho racistas. É também verdade que quando isto ocorre, a regra é ignorar, negar, calar, ou rebater as críticas como infundadas—e, muitas vezes, usufruir da publicidade gratuita que é automaticamente gerada.


Mas agora é possível relatar uma exceção à regra.

Nas últimas semanas, Eduardo Sterblitch, ator do “Pânico na TV”, programa de gosto polêmico da Rede Bandeirantes, foi alvo de duras críticas e acusações de representação racista e preconceituosa da população negra brasileira, e africana, através do personagem Africano. O site Fatos Políticos explicou:

“[O] personagem interpretado por Eduardo Sterblitch se comporta como um selvagem, ridiculariza religiões de matriz africana e faz danças e gestos que remetem a um macaco; preconceito repercutiu até em jornal senegalês: ‘O Brasil é um país racista? Veja como eles riem dos africanos!’”

A representação grotesca do negro feita por Sterblitch (veja aqui), parece não ter sido suficiente. Para tornar o quadro ainda bem mais embaraçoso, o programa lançou o “desafio do Africano”, para que os espectadores imitassem o personagem em vídeo, e depois enviassem suas gravações ao programa. É possível encontrar algumas “imitações” no Youtube, onde crianças e jovens respondem ao chamado do programa. (Para ver um exemplo desta assimilação, clique aqui).

As críticas a este tipo de produção televisiva são necessárias já que nosso país, além de ter uma grande população negra que é alvo histórico e constante de violentas agressões, hoje também agride médicos negros cubanos, imigrantes africanos e imigrantes haitianos. As críticas contra as representações racistas, fazem com que a linha tênue que diferencia ‘humor’ de ‘incitação à violência’ se torne muito menos invisível.

Ignorando o impacto social direto das caricaturas “humorísticas” no atual contexto de violência física e psicológica contra os negros, muitos internautas se sentiram obrigados a defender o personagem.

Porém, para surpresa de muitos, e para a surpresa daqueles que aplaudiram o personagem, no dia 11 deste mês, dois dias após a enxurrada de críticas e manifestação de repúdio ao personagem, Sterblitch fez uma declaração em seu perfil do Facebook:

Não sou Racista! E também estou chorando... A quem deixei triste ou pior, peço desculpas por minha IGNORÂNCIA !
Que, pelo menos, eu sirva de exemplo!
Para que isso não aconteça mais.

Ao contrário de Rodrigo Santanna e Danilo Gentili—e de outros notórios artistas—, a declaração de Sterblitch o elevou como profissional. Mas, por quê?

Sua declaração, feita dentro do contexto “foi racismo” vs. “não foi racismo”, revela um Eduardo Sterblitch como um artista não só capaz de considerar a crítica, mas um artista com humildade e culhões—desculpem-nos pelo uso apropriado do termo—para reconhecer um erro na construção de um personagem. Sterblitch pôde se desculpar e, até soar honesto ao fazê-lo. Sterblitch basicamente confessa, para a tristeza de alguns muitos, que “foi racismo”.

Mas peraí! A atitude do Eduardo não poderia ser apenas uma tentativa de “limpar” a sua imagem pública frente aos seus fãs que não ‘curtiram’ o seu personagem, e de também tirar o programa da mira dos críticos?


É óbvio que sim. Principalmente pelo fato da OAB de São Paulo ter encaminhado uma denúncia contra o programa e contra o personagem à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República. O ato de se desculpar primeiramente serve como uma estratégia de ‘limpeza’ de imagem assim como visa a dar continuidade tanto a carreira de um ator quanto a permanência do programa no ar—a Band também se sentiu obrigada a se desculpar.

Ainda assim, pedir desculpas por ofensas dirigida aos negros, no Brasil, é um discurso bastante atípico, nada comum, mesmo quando sob denúncia e investigação legal. Danilo Gentili, por exemplo, foi inocentado pela justiça. Rodrigo Santanna, na mesma posição de Sterblitch quando da denúncia à promotoria do Rio que investigou a personagem Adelaide em 2012, somente foi capaz de dar a seguinte declaração sobre sua personagem:

Só posso dizer que o foco do meu trabalho é o humor. Prefiro não me manifestar a respeito dessa denúncia.

É fácil perceber que é negado um certo grau de respeito à população negra brasileira, onde até o simples gesto de “pedir desculpas” ainda hoje parece ser considerado inapropriado. Gentili não se desculpou pelo que disse aos ofendidos com a sua piada da banana, contudo, como o jornalista Kiko Nogueira, ao comparar os casos Sterblitch e Gentili, recentemente relembrou:

“Gentili ofendeu também os judeus numa blague inacreditável: ‘Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz’. 
Naquela ocasião, no entanto, fez um mea culpa: ‘Minha intenção como comediante nunca foi trazer nenhum outro sentimento ao público q não fosse alegria. Peço perdão se falhei nesse meu objetivo com a piada q fiz essa tarde. Me coloco a disposição da comunidade Judaica para me redimir’ (sic). 
Não se sabe de seus serviços para a comunidade judaica, mas ele foi trabalhar com Silvio Santos”.

“Racismo” é um conceito bastante pesado. Ele revela uma postura social altamente desprezível à qual muitos não desejariam estar levemente associados. Deste modo, para se desassociar de uma atitude de cunho racista, basta dizer, “não foi racismo”. Basta criar a dúvida. Na prática, negar o racismo tem sido a melhor defesa em se tratando da população negra.

Para Eduardo Sterblitch, teria sido muito mais fácil ficar calado, ou negar as acusações, ou entregar sua defesa aos plantonistas do time do “não foi racismo” no Facebook —que contou, inclusive, com testemunhos voluntários de auto-declarados negros à favor do personagem. Estes, abafariam o caso pelo desgaste e através do uso de argumentos masturbatórios (uso desesperado de frases que tentam simular uma ideia que soa mil vezes melhor). Relembrando, esta é a praxe, mesmo nos casos de práticas evidentemente racistas.

Ao contrário de outros artistas, Sterblitch preferiu sair do lugar comum e abriu mão da pornográfica defesa do ‘isto-é-mimimi’; ele optou em não permanecer no lugar confortável da declaração infernal das “boas intenções” e do implausível argumento de que é dever e direito do humorista ofender e constranger a quem quer que seja. Sterblitch, ao contrário, optou em se declarar culpado.


Reconhecendo sua “IGNORÂNCIA !”, Sterblitch demonstrou poder lidar com maturidade e profissionalismo com a crítica e com uma crise, que até para muitos fãs de seu talento, punha em xeque o seu caráter profissional e pessoal. E, ao oferecer sua experiência como um exemplo, o ator parece perceber que a sua área de atuação profissional necessita de maior sensibilidade social, pois além de criar alegria, o humor também é capaz de ferir quando usado de forma social, política, e humanamente incorreta.

Neste atual momento da televisão brasileira, deveria haver um maior empenho na qualidade de programação e na reformulação das mensagens nada subliminares que ela transmite—que certamente são absorvidas pelo público e se tornarão referências para as suas vidas—, a atitude do ator está totalmente fora do padrão usado pela maioria dos artistas que se encontram em situação similares. Neste sentido, a decisão de Sterblitch pode ser vista como admirável.

É aqui, porém, que surge a pergunta: pedir desculpas é o suficiente?

Certamente os pedidos de desculpas não serão suficientes. Caso o ato de pedir desculpas vire apenas um modismo, ele se tornará a serra dentro do bolo. Por um outro lado, tal atitude pode ajudar a legitimar o respeito aos negros como ética profissional e a desinstitucionalizar o “racismo” enquanto uma forma de “expressão artística”. O pedido de desculpas de Sterblitch talvez nos sirva como um sinal positivo nesta direção.

O que vem a seguir revelará a autenticidade da declaração do ator.

Torçamos para que a declaração de Eduardo Sterblitch seja tão honesta quanto ele a fez soar, e que ela permaneça com o tempo, pois o cara tem um talento inegável—infelizmente perdido na mediocridade do Pânico na TV.

c&p

12 comentários:

  1. Este programa não deveria se chamar panico e sim Penico.
    Totalmente despresivel, perdeu a graça e apelam para humilhação alheia.

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    1. Oi Anônimo,

      Talvez o programa já tenha dado o que tinha que dar. Chega uma hora em que tudo termina.

      Obrigado pelo comentário.

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  2. Sempre achei o Eduardo Sterblitch superestimado. Para mim ele é só um cara que não tem medo de parecer ridículo. Ceará e Carioca são muito mais talentosos (para ficar no elenco do Pânico).
    Seus personagens são sempre exageradamente caricatos. O recurso de pintar o corpo seminu inclusive já foi usado anteriormente com o Fred Mercury Prateado. A interpretação fica por conta apenas de gestos amplos, danças improvisadas e poucas falas (em falsete ou só sons guturais). Em suma: um artista limitado. Porém, ele fez amigos, que, por sua vez, se encarregaram de encher sua bola com elogios. Muito disso por conta de uma peça teatral de suposta seriedade que ele encenou. Na época da peça, ele chegou até mesmo a afirmar (sério) que não havia no Brasil, ninguém que entendesse mais de teatro do que ele, o que por si só demonstra o quão imaturo ele é. Devemos dar o devido desconto por causa de sua pouca idade. Não podemos negar que ele tem potencial, e pode ainda se tornar um dia, um grande artista. Quanto ao Danilo Gentile, tenho só uma observação: é muito mais conveniente (e proveitoso) se desculpar com a comunidade judaica (que tem influência nos meios de comunicação que o remuneram) do que com os negros. Aliás, a piada sobre o metrô até que foi engraçada, já o mesmo não se pode dizer sobre os negros comparados a macacos.

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    1. Oi Anônimo,

      Eduardo Sterblitch tem um grande potencial, com certeza. Soubemos da peça de teatro mas não tivemos a oportunidade de assistí-lo no palco—a experiência de palco fará bem a ele, bem como sair daquele programa de TV. O Pânico já teve alguns momentos bons e muitos outros bem ruins—a maior parte. Quanto ao Gentili, é aquilo… tem gente que gosta.

      Obrigado pelo comentário.

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  3. ele pode ser ruim o que for, mas é UMA FRESCURA SEM TAMANHO brigar por causa do personagem só por ser negro, hoje em dia tudo é preconceito, não pode se falar nem fazer nada que os metidos a certinhos de plantão vem encher o saco. Saudade do tempo que não tinha frescura nem um bando de besta metido a politicamente correto atrás de um pc.

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    1. Caro Anônimo,

      Não achamos o Sterblitch ruim. Muito pelo contrário. Se você tivesse lido todo o texto talvez você pudesse, atrás do seu pc, ter entendido que estamos elogiando o ator ao chamá-lo de corajoso.

      Certamente seria uma “uma frescura sem tamanho brigar por um personagem somente por ele ser negro”, mas este não é o caso do nosso texto. Primeiro, ninguém está “brigando”, e; segundo, não estamos “argumentando” sobre prática de racismo na construção de um personagem “somente” por ele ser negro. Obviamente nem tudo é preconceito ou mesmo racismo. Mas o personagem ‘Africano’ é.

      Podemos ver que você não concorda com esta afirmação, mas não pretendemos fazer com que você mude de opinião uma vez que acreditamos que o Politicamento Correto, como quase sinônimo de “respeito ao próximo”, seja um processo de revelação individual; algo que nasce de uma experiência pessoal quando este princípio não é passado de pais para filhos.

      Obrigado pelo comentário.

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  4. Artigo baseado no "politicamente correto", comportamento ridiculo, o qual apenas limita e oprime a liberdade de expressao. é preciso separar a humilhacao e inferiorizacao da imagem alheia, da simples liberdade poética, da simples brincadeira. Estes quadros de humor apenas ressaltam caricaturas das mais diversas facetas existentes na sociedade brasileira. sou gordo e apelidado das mais diversas formas, tenho amigos negros q chamo de preto safado o tempo todo, nossa amizade nao seria a mesma, deixem de ser enfadonhos\.

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    1. Oi Anônimo,

      Ficamos feliz em saber que no seu círculo de amizades você se diverte e exerce seu direito de expressar o seu mais profundo carinho por seus amigos negros. Porém, não aconselhamos o uso da ‘poética’ expressão “pretos safados” com indivíduos que você desconhece, já que muitos negros detestariam e talvez não venham a enxergar todo o carinho, amor e respeito que você certamente tenta passar quando usa tal expressão.

      Desculpe-nos por nosso texto ter sido enfadonho pra você, mas hoje, felizmente, o Politicamente Correto (como quase sinônimo de “respeito ao próximo”) é mais uma das “divesas facetas” existentes na sociedade brasileira.

      Obrigado pelo comentário.

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  5. Página tendenciosa....
    Ja disse Morgan Freeman:
    " O Racismo so vai acabar, quando pararmos de falar sobre isso"
    Enquanto os negros chorarem com cada citação sobre os negros, o racismo somente se perpetuará, é óbvio que avanços foram alcançados com a luta dos direitos, mas nem tudo deve ser levado a ferro e fogo.
    Um quadro de humor é apenas um quadro de humor, assim como fazem com gordos, magros, asiáticos, portugueses, índios, pessoas altas, baixas, sem dentes, narigudos....
    Parem de mimimi e façam que nem os japoneses....que chegaram sem nada e conquistaram muita coisa e são zuados ate hj e olhos puxados, pau pequeno e aquela voz de retardado e não choram por isso. Eles mostram que são melhores que isso

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    1. Oi Anônimo,

      Não podemos nos iludir achando que os japoneses gostam de todos os estereótipos ligados a eles, e muito menos achar que a experiência migratória deste grupo ao Brasil pode ser usada como argumento comparativo à experiência dos negros no Brasil. Se assim o fizermos, o já bem frágil e “tendencioso” argumento “mimimi” usado para classificar artigos como o nosso, ficará ainda mais infantil e infundado do que já é.

      Morgan Freeman não nos pediu para fazer de conta que racismo não existe. Adoraríamos viver no mundo que Freeman sugere ser possível, mas infelizmente ainda não vivemos. O mundo dos negros no Brasil é feito de ferro e fogo. E um quadro de humor nem sempre é apenas um quadro de humor.

      Mas citando artistas, também vale lembrar Gabriel O Pensador que disse “O racismo é burrice, mas o mais burro não é o racista; é o que pensa que o racismo não existe”.

      Obrigado pelo comentário.

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  6. Enquanto tratarem piadas e brincadeiras como racismo será inevitável que aumente o ''barulho''.
    Lembem-se que essa repercussão negativa é boa para alguns e o edu infelizmente foi uma vítima
    da hipocrisia.

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    1. Anônimo,

      Racismo não pode ser tratado como brincadeira e nem como piada.

      Obrigado pelo comentário.

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