‘A Bruxa de Blair’ (1999): Os Bastidores do Filme Que Sacudiu o Gênero ‘Cine Terror’

A atriz Heather Donahue em cena do filme “A Bruxa de Blair”. (Imagem: Reprodução/Internet).

Para aqueles que gostam de filmes de terror, “A Bruxa de Blair” é filme OBRIGATÓRIO! Pode-se dizer que este filme deu uma grande virada no gênero “Terror”, “Horror”, ou do gênero “Filme de Sujar as Calças”, e popularizou o gênero “gravações encontradas”.

(Quem ainda não assistiu o filme, não se preocupe: Não vamos contar a trama, assim não tem “estraga prazeres”; então, podem continuar lendo.)

O filme estadunidense estreou há 16 anos atrás e, no Brasil, teve1,4 milhão de expectadores. Aquelas e aqueles que assistiram o filme na época não conseguiam falar de outra coisa—e vários outros falaram bem pouco, talvez na tentativa de esquecer o que viram, e assim poderem dormir com a luz apagada.

Gravado em 1997, em pouco mais de uma semana na pequena cidade de Burkittsville, no estado de Maryland, “A Bruxa de Blair (“The Witch Blair Project”) foi lançado em 1999 após uma incomum e polêmica campanha publicitária. A produção faturou 250 milhões de dólares nas bilheterias, o que pode ser chamado de um incrível retorno financeiro levando em conta o bem pequeno orçamento da produção: 25 mil dólares.

Mas o sucesso de “A Bruxa de Blair” não se deve aos avanços tecnológicos que possibilitaram efeitos especiais fantásticos. Não, não, não… O filme não contou com nenhum efeito especial de última geração—algo raro hoje em dia no gênero de terror. Ao contrário, os diretores usaram os bem antigos efeitos psicológicos da indução.


Daniel Myrick e Eduardo Sánchez escreveram, dirigiram e montaram o filme nos levando a crer em suas bem simples sugestões de que fenômenos sobrenaturais estariam realmente rolando naquele bosque, com bem pouco sendo revelado nas imagens. E aqui se encontra a genialidade do roteiro: uma certa simplicidade.

A trama? Três jovens estudantes de cinema fazendo um documentário sobre a lenda da existência de uma bruxa na pequena cidade de Blair. Os três entram em um bosque com suas câmeras nas mãos, se perdem, e coisas estranhas ocorrem.

Dentro deste simples contexto, os diretores usaram um recurso, digamos, tecnológico para induzir os espectadores a um verdadeiro pesadelo: o filme foi gravado pelos próprios atores usando câmeras, destas que são vendidas para o consumidor comum. Por isso as imagens são rústicas, bem semelhantes àquelas das gravações dos vídeos caseiros—as cenas podem ser bastante tremidas, com movimentos panorâmicos muito rápidos, zoons imperfeitos e/ou impensados, cenas rápidas que mostram o chão, os pés, o céu, etc.

Mas os diretores também usaram um outro bem antigo truque: a mentira. A divulgação usada antes da estreia vendeu o filme como um documentário montado a partir de “imagens encontradas”; isto é, de gravações reais. Tal publicidade enganosa é considerada como a verdadeira fonte do sucesso de “A Bruxa de Blair”. Por exemplo, o filme abre com a seguinte informação:

“Em outubro de 1994, três estudantes de cinema desapareceram no bosque próximo da cidade de Burkittsville, em Maryland, enquanto filmavam um documentário. Um ano depois estas imagens foram encontradas”.

Dentro desta estratégia de divulgação do filme, uma página também foi lançada na ainda jovem Internet—que estava em plena fase de expansão. (A página “Blair Witch” mudou bem pouco desde 1999.) A falsa publicidade levou muita gente a acreditar que tudo visto em “A Bruxa de Blair” era real; isto é, que as gravações foram realmente ‘encontradas’ e que os três jovens realmente estavam desaparecidos, ou mortos.

O gênero dos filmes de “gravações encontradas” não foi criado pelo time de “A Bruxa de Blair”. Ainda que o—insano—filme italiano de terror/horror, filmado na Amazônia, “Cannibal Holocaust” (1980), dirigido por Ruggero Deodato, tenha usado a técnica do falso “realismo” uns 19 anos antes de “A Bruxa”, o filme italiano não conseguiu popularizar o gênero—mas levou o seu diretor a ser preso por assassinato (originalmente ele foi preso por obscenidade) já que as autoridades italianas acreditaram que atores foram realmente mortos.

“A Bruxa de Blair” além de ter sido capaz de popularizar e concretizar o gênero “gravações encontradas”, também criou o gênero de terror (horror, ou suspense) da “câmera na mão dos atores” influenciando filmes como “Cloverfield” (2008) e “Atividade Paranormal” (2009) e suas sequências, até o mais recente “Área 51” (2015).

No dia 5 de agosto último, Roger Cormier (que escreve bastante sobre os fatos por trás de filmes) do site Mental Floss, listou 17 fatos interessante por trás da “Bruxa de Blair”. Traduzimos o texto de Roger. Leia abaixo.

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17 Fatos Sobre “A Bruxa de Blair”

1. O “ROTEIRO” ERA UM ESBOÇO DE 35 PÁGINAS.

Myrick e Sánchez escreveram a primeira versão de ‘A Bruxa de Blair’ em 1993, quando ambos ainda eram estudantes de cinema em Orlando, Flórida. O roteiro foi escrito mais como um esboço pois eles já tinham planejado que os diálogos seriam improvisados pelos atores para que a estória parecesse real.

2. O PROCESSO DE SELEÇÃO DOS ATORES FOI BEM INCOMUM.

A atriz Heather Donahue se lembra quando leu um anúncio na revista Backstage que dizia: “Um longa metragem improvisado a ser rodado em local florestal: será um inferno e a maioria de vocês que estão lendo este anúncio provavelmente não deveria comparecer ao teste”. Para testar as habilidades de improvisação dos candidatos, ao entrar na sala para a audição, ele ou ela imediatamente ouvia de um dos diretores: “Você esteve na cadeia durante os últimos nove anos. Nós somos o conselho técnico de liberdade condicional. Por que nós deveríamos deixar você sair?” Se o ator hesitasse mesmo por um instante, os diretores concluíam o teste.

3. OS TRÊS ATORES PRINCIPAIS FORAM PAGOS U$1000 POR DIA.

Foram oito dias de gravações. Heather Donahue, Michael C. Williams, e Joshua Leonard ganharam muito mais após o lançamento de “A Bruxa de Blair”. Michael C. Williams afirmou ter recebido cerca de $300 mil dólares.

4. NO FILME, HEATHER E JOSH, SUPOSTAMENTE SERIAM EX NAMORADOS.

A ideia foi eliminada antes das gravações serem iniciadas, ainda que ironicamente tenha rolado muita tensão entre os dois atores/personagens. Quando Heather chama Josh de “Sr. Pontualidade” no filme, ela faz uma piada ácida (Josh chegou muito tarde para gravar naquele dia). Os diretores ficaram tão irritados que decidiram que, ao invés de Mike, Josh seria o primeiro a morrer no filme. Como prêmio, em sua saída, Joshua Leonard recebeu uma refeição em um restaurante da rede Denny’s—durante as gravações na floresta, os atores somente recebiam rações de barras energéticas e bananas—e um ingresso para um show do grupo Jane’s Addiction, enquanto os outros dois permaneceram no Parque Estadual Seneca Creek.

5. OS DENTES NOS GRAVETOS ERAM DENTES HUMANOS DE VERDADE.

Os dentes foram fornecidos pelo dentista de Eduardo Sánchez. O cabelo era o cabelo de Josh.

6. OS ATORES USARAM RASTREADORES GPS PARA ENCONTRAR AS INSTRUÇÕES DO DIA.

A produção do filme programou pontos de espera em aparelhos de GPS para que os atores localizassem engradados contendo três recipientes plásticos. Cada recipiente plástico continha instruções sobre o rumo que estória tomaria para cada ator, o qual não podia revelar suas instruções para os outros. À partir disso eles estavam livres para improvisar o diálogo seguindo as instruções gerais dadas a eles.

7. O SOM DAS VOZES DE CRIANÇAS NA REALIDADE ATERRORIZARAM MIKE.



Michael C. Williams disse que o momento mais aterrorizante foi quando ele ouviu o som das vozes das crianças, que na verdade moravam em frente a casa da mãe de Eduardo Sánchez, em três caixas de som que retumbaram do lado de fora de sua barraca.

8. OS ATORES TINHAM UMA PALAVRA-CÓDIGO PARA QUANDO QUISESSEM FALAR LIVREMENTE FORA DE SEUS PERSONAGENS.

Se um ator quisesse sair de seu personagem, ele ou ela diria “taco”.

9. SAIRIA MUITO CARO OBTER OS DIREITOS DE USO DE ALGUMAS COISAS.

Os diretores queriam usar a canção “We’ve Gotta Get Out Of This Place” (“Temos que cair fora deste lugar”) do grupo The Animals, tocando no rádio do carro no início do filme. Isso poderia ter sido um presságio engraçado, mas prosseguir com a ideia seria muito caro para os produtores. Eles conseguiram os direitos para que Heather citasse o tema da série de TV dos anos 60, “Gilligan’s Island” (“A Ilha dos Birutas”), assim como também conseguiram a aprovação para mostrar as Barras Energéticas.

10. AS GRAVAÇÕES TERMINARAM NA NOITE DE HALLOWEEN.

O restaurante Denny’s daquela área também teve uns clientes a mais no dia 31 de outubro de 1997, uma vez que Heather Donahue e Michael C. Williams também foram levados até lá para comerem a primeira refeição de verdade em mais de uma semana. Michael descreveu sua saída do bosque, dando de cara com um bando gente fantasiada, como algo “bem surreal”.

11. DEZENOVE HORAS DE FILMAGEM REDUZIDAS A 90 MINUTOS APÓS EDIÇÃO.

Sánchez e Myrick levaram oito meses montando o filme para a sua estreia no festival Sundance. A versão inicial dos diretores era de duas horas e meia, e as cenas retiradas da versão que chegou aos cinemas foram usadas no site do filme e no falso documentário que foi transmitido pelo canal Syfy.

12. FOI O PRÓPRIO EDUARDO SÁNCHEZ QUEM CRIOU O SITE DO FILME.

O co-diretor foi a escolha lógica para construir o site que ajudou a divulgar o mito da Bruxa de Blair para quem estivesse atrás de informações, já que ele era a única pessoa envolvida com o filme que tinha experiência na área. Também, segundo o próprio Sánchez, ele estava com tempo disponível para montar o site porque ele não tinha namorada naquela época.

13. MUITA GENTE ACREDITOU QUE OS TRÊS ATORES TINHAM REALMENTE MORRIDO.

O hoje extinto estúdio Artisan, que comprou os direitos do filme, fez um grande esforço para manter os três atores longe da imprensa por um tempo. O estúdio tampouco corrigiu os sites, como o IMDb (Internet Movie Database), que afirmaram que os atores tinham falecido. A mãe de Heather Donahue até chegou a receber cartões de condolência.

14. ALGUNS ESPECTADORES PASSARAM MAL NOS CINEMAS POR CAUSA DA CÂMERA TRÊMULA

O diretor regional da rede de cinemas Loews Cineplex Entertainment estimou que, em média, uma pessoa em cada sessão do filme ficou doente e pediu devolução do dinheiro da entrada.

15. SOMENTE JOSH AINDA TRABALHA EM TEMPO INTEGRAL COMO ATOR

Atualmente, Heather cultiva maconha medicinal () e escreveu um livro de memórias. Mike largou seu emprego fazendo mudanças de móveis durante uma entrevista no programa ‘Late Night’ do apresentador Conan O’Brien, feita logo após o lançamento de “A Bruxa de Blair”. Mas ele retornou àquela atividade para complementar sua renda como ator e assim poder sustentar sua esposa e seus filhos.

16. BURKITTSVILLE, EM MARYLAND, TEVE QUE LIDAR COM VANDALISMO E COM FÃS ASSUSTADORES

As placas de madeira que davam boas-vindas à Burkittsville foram roubadas, assim como aquelas que as substituíram. O estúdio Artisan Entertainment comprou quatro placas de metal, que desde então enferrujaram e, mais tarde, de alguma forma também foram roubadas. Debby Burgoyne, a prefeita da cidade—população: 180 habitantes—uma vez, após levantar da cama, encontrou um fã do filme parado em sua sala de estar. Aparentemente, o fã pensou que a casa estivesse aberta a excursões. “Foi uma loucura”, a prefeita disse ao Los Angeles Times. “Tinha pessoas com câmeras por toda parte. Eu me maquiava toda e colocava uma camisola maravilhosa antes de sair para pegar o jornal da manhã”.

17. HOUVERAM RUMORES SOBRE UM TERCEIRO FILME.

A sequência do filme feita em 2000, “A Bruxa de Blair 2-O Livro das Sombras” (‘Book of Shadows: Blair Witch 2’), foi considerada uma desavergonhada forma de ganhar uma ‘grana fácil’ e que teve pouco envolvimento de Sánchez e Myrick. Mas os co-diretores originais falaram sobre a possibilidade de uma prequela que se passaria no final dos anos de 1700.

Ò

Caso Sánchez e Myrick estiverem mesmo planejando um filme que se passa anteriormente ao que foi mostrado em 1999, tá na hora deles se manifestarem sobre o assunto. Assim eles poderiam deixar os fãs de “A Bruxa de Blair” finalmente dormirem em paz—ou não.

c&p

Fonte: No Film School; Mental Floss; BoingBoing; Details.

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