Mulher Maravilha—A Verdadeira (e Secreta) História da Super Heroína

Mulher Maravilha Procurada. Detalhe do wallpaper de Todd Franklin, baseado na capa da edição No. 108 da revista em quadrinhos Wonder Woman de agosto de 1959.

A Surpreendente História da Origem da Mulher Maravilha

Artigo de Jill Lepore, autora do livro A História Secreta da Mulher Maravilha, explica como a Super Heroína foi criada: baseada em ideais feministas, sob discussões sobre o imaginário e proteção da infância, e entre polêmicas sobre violência e fantasias sexuais.

“O Super Homem foi lançado em 1938, o Batman em 1939, a Mulher Maravilha em 1941. Ela foi criada por William Moulton Marston, um psicólogo com um título de Ph. D. da Harvard University”, explica Jill Lepore. O livro A História Secreta da Mulher Maravilha, lançado este ano, é um livro de história da cultura pop que apresenta personagens reais criando, debatendo, elaborando e defendendo um personagem fictício. Mas caso o livro fosse uma obra de ficção, o bastante complexo Dr. William Moulton Marston certamente seria o personagem principal da estória.

A autora apresenta um comunicado de imprensa sobre o lançamento da personagem há mais de meio século atrás, explicando o porquê de sua criação:

“’A Mulher Maravilha’ foi concebida pelo Dr. Marston para estabelecer entre as crianças e os jovens um padrão de feminilidade forte, livre e corajosa; para combater a idéia de que as mulheres são inferiores aos homens, e para inspirar as meninas a terem autoconfiança para conquistas no atletismo, nas ocupações e nas profissões monopolizadas por homens”, porque “a única esperança para a civilização é a maior liberdade, desenvolvimento e igualdade das mulheres em todos os campos da atividade humana’”.

Poster da Mulher Maravilha para as suas tirinhas nos jornais. Artista desconhecido, 1944. (Reprodução/Internet)

Traduzimos o artigo de Jill que conta um pouco da história da Mulher Maravilha, e muito do seu criador. Um artigo inteligente e muito interessante que oferece um olhar crítico e profundo no processo de criação dos quadrinhos que prova que os super heróis não surgem do nada. O artigo também mostra como esses personagens deixaram de fascinar somente as crianças e jovens, e acabaram se tornando uma verdadeira fonte de obsessão e polêmica para os adultos envolvidos em políticas públicas—algo que já publicamos aqui em relação à vida íntima do Batman.

Muito embora tenha sido criada com base em ideais feministas e se tornado parte de algo como uma Santíssima Trindade da DC Comics (junto ao Super Homem e Batman) e, apesar da bem famosa série de TV estrelada por Linda Carter dos anos 1970, a Mulher Maravilha ainda não foi agraciada com uma baita produção cinematográfica no estilo daquelas várias vezes presenteadas aos seus dois super amigos masculinos.

Mas depois de (aparentemente) superar o trauma causado pelo fracasso do filme A Mulher Gato (2004), estrelado por Halle Berry, Hollywood tentará se redimir com as super heroínas. A Mulher Maravilha finalmente aparecerá nas telonas. Bem, primeiro como uma coadjuvante do Super Homem na sequência do filme Man of Steel (“O Homem de Aço”) de 2013, estrelado por Henry Cavill. O filme também tem o Batman. Os três estarão juntos novamente, mesmo que o título previsto para o filme seja Batman v. Superman: Dawn of Justice, com lançamento previsto para 2016.

Mas isso não quer dizer que o sexismo acabou. O filme gerou protestos de alguns fãs quando foi anunciado que Ben Affleck havia sido escalado para interpretar o homem morcego. Os revoltados não consideram Ben um ator que possa seguir os passos de Christian Bale. Gal Gadot, atriz israelense, foi escalada para viver a heroína amazona. Uma das críticas em relação a escalação da atriz: seus peitos seriam muito pequenos. Um filme só dela, com o seu nome no título, somente em 2017.

Enquanto os fãs da Mulher Maravilha esperam por mais 3 anos para ver a sua heroína no cinema, vejamos como ela foi confeccionada. Leia abaixo o artigo que Jill Lepore escreveu para a Smithsonian Magazine sobre a origem e criação da Mulher Maravilha.

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A Surpreendente História da Origem da Mulher Maravilha

A história da origem da super-heroína dos quadrinhos criada há sete décadas atrás manteve-se encoberta—até agora.

Artigo de Jill Lepore publicado originalmente na Smithsonian Magazine, edição de outubro de 2014.

“Célebre Psicólogo é Revelado Como o Autor de ‘Mulher Maravilha’, o Sucesso de Vendas em Quadrinhos”, dizia a surpreendente manchete. No verão de 1942, o escritório de Nova York da ‘All-American Comics’ enviou um comunicado de imprensa aos jornais, revistas e estações de rádio de todo os Estados Unidos. A identidade do criador da Mulher Maravilha foi “a início, mantida em segredo,” dizia o documento, mas havia chegado a hora de fazer uma declaração chocante: “o autor de ‘Mulher Maravilha’ é o Dr. William Moulton Marston, psicólogo internacionalmente famoso”. A verdade sobre a Mulher Maravilha finalmente foi revelada.

Ou, pelo menos foi isso que pareceu ter acontecido. Mas, o nome de seu criador era, na verdade, o menor dos segredos sobre a Mulher Maravilha.

A Mulher Maravilha é a mais popular personagem feminina dos quadrinhos de todos os tempos. Além do Super Homem e do Batman, nenhum outro personagem dos quadrinhos conseguiu sobreviver por tanto tempo. Gerações de meninas levaram seus sanduíches para a escola em lancheiras da Mulher Maravilha. E como todo outro super-herói, a Mulher Maravilha tem uma identidade secreta. Mas, diferentemente de todos os outros super-heróis, ela também tem uma história secreta.
“Na estória Victory at Sea (Vitória ao Mar), de março de 1943, Steve Trevor brinca com a possibilidade de administrar o teste do detector de mentira em Diana Prince, a identidade secreta da Mulher Maravilha”.
Texto da Tirinha: Quadro 1: “Enquanto isso, Steve testa todos os agentes do serviço de inteligência com o detector de mentira”. Agente diz, “Não senhor, eu não plantei aquela bomba!”; Steve, “Você está dizendo a verdade. Todos os nossos agentes são inocentes—Graças a Deus!”. Quadro 2: Diana Price, “Estou feliz por você não ter se machucado ontem à noite!”; Steve, “Diana! Você quebrou seu braço! Você não deveria estar trabalhando!”. Quadro 3: Diana, “Oh, eu estou bem! Ouvi dizer que você está testanto todo mundo com o detector de mentira—Você quer fazer o teste em mim?”; Steve, “Ha! Ha! Eu adoraria testar você com o detector de mentira e ver se você é realmente a Mulher Maravilha! (Imagem: Reprodução/Internet)

Em um episódio do quadrinho da heroína, um personagem chamado Brown, o editor de um jornal que estava desesperado para descobrir o passado da Mulher Maravilha, nomeia um time de repórteres para investigá-la. Brown, já meio enlouquecido, é internado em um hospital. A Mulher Maravilha se disfarça de enfermeira e entrega um pergaminho a ele. “Este pergaminho parece conter a história daquela moça que você chama de ‘Mulher Maravilha’!”, ela diz a Brown. “Uma mulher estranha, usando um véu, deixou isto comigo”, ela complementa. Brown pula da cama e corre para a redação do jornal, e ele grita com o pergaminho em mão, “Parem as máquinas! Eu consegui a história da Mulher Maravilha!” Mas a história secreta da super-heroína não está escrita no pergaminho. Pelo contrário, sua história encontra-se escondida em caixas, armários e gavetas, em milhares de documentos, alojada em bibliotecas, arquivos e coleções espalhadas por todo o país, incluindo os documentos particulares do criador da personagem, Dr. Marston—documentos que, antes de eu mesma vê-los, nunca haviam sido vistos por ninguém fora da família do psicólogo.

O véu que vem cobrindo o passado da Mulher Maravilha por sete décadas, oculta uma estória muito importante sobre as revistas em quadrinhos, e super-heróis, e censura, e feminismo. Assim como Marston disse uma vez, “Francamente, a Mulher Maravilha é uma propaganda psicológica para um novo tipo de mulher que, eu acredito, deveria governar o mundo”.

As revistas em quadrinhos foram mais ou menos inventadas em 1933 por Maxwell Charles Gaines, um ex-diretor de uma escola de ensino fundamental que se tornou o fundador da editora All-American Comics. O Super Homem deu suas voltas sobre altos prédios pela primeira vez em 1938. O Batman começou a espreitar pelas sombras em 1939. E as crianças liam essas estórias aos montes. Mas no momento em que a guerra estava devastando a Europa, as revistas em quadrinhos celebravam a violência, até mesmo a violência sexual. Em 1940, o jornal Chicago Daily News chamou os quadrinhos de “desgraça nacional”. “Dez milhões de cópias desta série de horror sexual são vendidas a cada mês”, escreveu o editor literário do jornal, convocando pais e professores a banir os quadrinhos, “a não ser que queiramos que a próxima geração seja mais feroz do que a presente”.

Para se defender dos críticos, Maxwell Charles Gaines, em 1940, contratou o Dr. Marston como consultor. “Por muito tempo o Doutor Marston tem sido um defensor do tipo correto de revistas em quadrinhos”, Gaines explicou. Marston tinha três diplomas da universidade de Harvard, incluindo um doutorado em psicologia. Ele levou o que ele mesmo chamou de “uma vida experimental”. Marston foi um advogado, um cientista, e um professor. Ele é geralmente tido como o inventor do teste detector de mentiras: Ele era obcecado em desvendar os segredos dos outros. Ele foi consultor em psicologia para os estúdios Universal Pictures. Ele escreveu roteiros, um romance e dúzias de artigos para revistas. Gaines leu tudo sobre Marston em um artigo na revista Family Circle (“Círculo Familiar”). No verão de 1940, Olive Richard, uma escritora da equipe de redação da revista, visitou Marston em sua casa em Rye, Nova York, para pedir sua opinião como especialista sobre revistas em quadrinhos.

“Algumas delas estão cheias de tortura, sequestro, sadismo, e outros temas cruéis”, disse a escritora da revista.

“Infelizmente isto é verdade”, admitiu Marston, mas “quando uma adorável protagonista está amarrada em uma estaca, os fãs dos quadrinhos estão certos de que o resgate chegará no momento exato. O desejo do leitor é salvar aquela moça, ele não quer vê-la sofrer”.

William Moulton Marston foi um homem de mil vidas e de mil mentiras. “Olive Richard” era o pseudônimo de Olive Byrne, e ela não fez uma visita a Marston—ela Morava com ele. Ela era também a sobrinha de Margaret Sanger, uma das mais importantes feministas do século 20. Em 1916, Margaret Sanger e sua irmã, Ethel Byrne, a mãe de Olive Byrne, abriram a primeira clínica de planejamento de natalidade nos Estados Unidos. Ambas foram presas por distribuição ilegal de contraceptivos. Na cadeia, Ethel Byrne fez uma greve de fome que quase lhe levou à morte.

“Marston, geralmente considerado o inventor do polígrafo, ou detctor de mentira, administra o teste na secretária de sua firma de advocacia em 1921”. (Reprodução/Internet)

“Marston (no canto direito) faz perguntas a uma mulher que passa pelo teste do detector de mentira enquanto Olive Byrne (no canto esquerdo) anota suas respostas” (Smithsonian Magazine). (Foto: Reprodução/Internet)

Olive Byrne conheceu Marston em 1925 quando ela estudava na Tufts University; ele foi seu professor de psicologia. Marston já era casado com uma advogada chamada Elizabeth Holloway. Quando Marston e Byrne se apaixonaram, ele deu uma escolha a Holloway: ou Olive moraria com eles, ou ele sairia de casa. Olive então se mudou para o lar de Marston e Holloway. Entre 1928 e 1933, cada uma delas deu luz à duas crianças, e todos viveram juntos como uma família. Elizabeth trabalhava fora; Olive ficava em casa e cuidava das crianças. Eles diziam aos recenseadores e a qualquer um que perguntasse, que Olive Byrne era uma viúva cunhada de Marston. “As pessoas tolerantes são as mais felizes”, Marston escreveu em um ensaio para uma revista em 1939, então “por quê não se livrar de preconceitos dispendiosos que te limitam”. No ensaio ele listou os “Seis Tipos de Preconceito Mais Comuns”. Eliminando o preconceito número seis—“Preconceito contra pessoas não convencionais e não conformistas”—era o que mais tinha signficado para ele. Os filhos de Olive não descobriram que Marston era o pai deles até o ano de 1963—quando Holloway finalmente o admitiu—e somente depois de extrair deles a promessa de que ninguém jamais tocaria no assunto outra vez.

Maxwell Charles Gaines não sabia de nada disso quado conheceu Marston em 1940, caso contrário ele nunca o teria contratado: Gaines não cortejava controvérsias, ao contrário, ele procurava evitá-las. Marston e a Mulher Maravilha foram fundamentais para a criação daquilo que se tornaria a DC Comics. (DC era a abreviação de Detective Comics (Quadrinhos de Detetives), a revista em quadrinhos na qual Batman fez sua estreia.) Em 1940, Gaines decidiu combater os seus críticos criando um conselho de consultoria editorial e nomeou Marston para servir neste conselho, e a DC decidiu carimbar suas revistas nas quais o Super Homem e o Batman figuravam com um logotipo, um certificado de qualidade, onde se lia, “Uma Publicação DC”. E, desde que “a pior ofensa dos quadrinhos era a sua alarmante masculinidade”, disse Marston, a melhor maneira de se defender dos críticos seria criar um super-herói feminino.

“Bem, Doutor”, disse Gaines, “eu peguei o Super Homem depois de cada agência na América o ter recusado. Eu vou correr o risco com a sua Mulher Maravilha! Mas você mesmo vai ter que escrever as estórias”.

Em fevereiro de 1941, Marston submeteu um rascunho do seu primeiro roteiro, explicando o subtexto da origem da Mulher Maravilha como guerreira amazona da Grécia antiga, onde os homens mantiveram as mulheres acorrentadas até que elas conseguiram se libertar e escapar. “As NOVAS MULHERES libertas e fortalecidas dando apoio umas as outras (na Paradise Island, Ilha Paraíso) desenvolveram um enorme poder físico e mental”. Seu quadrinho, disse ele, pretendia narrar “um grande movimento agora em curso—o crescimento do poder das mulheres”.

A Mulher Maravilha fez sua estréia na All-Star Comics no final de 1941, e na capa de uma nova revista em quadrinhos, Sensation Comics, no início de 1942, desenhada pelo artista Harry G. Peter. Ela usou uma tiara dourada, um bustiê vermelho, calcinha azul, e botas de couro vermelho cano alto. Ela era um pouco furtiva; ela era muito sacana. Ela deixou a Ilha Paraíso para combater o fascismo usando o feminismo, na “América, a última cidadela da democracia e da igualdade de direitos para as mulheres!”

Para Gaines tudo parecia ser um divertimento muito positivo, limpo, e superpatriótico. Mas em março de 1942, a National Organization for Decent Literature (“Organização Nacional Para Literatura Decente”) colocou a Sensation Comics em sua lista negra de “Publicações Desaprovadas Para Jovens” por uma razão: “A Mulher Maravilha não está suficientemente vestida”.

“Assim que a Mulher Maravilha apareceu na revista em quadrinhos Sensation Comics, ao começar pela sua capa de estréia, ela causou agitação. ‘A Mulher Maravilha não está suficientemente vestida’, resmungou um bispo” (Smithsonian Magazine). (Reprodução/Internet)

Gaines decidiu que ele precisava de um novo especialista. Ele recorreu a Lauretta Bender, professora associada de psiquiatria na faculdade de medicina da New York University e psiquiatra sênior do hospital Belleveu, onde ela era diretora da enfermaria infantil, uma especialista sobre agressividade.

Ela tinha um interesse antigo pelas revistas em quadrinhos, mas esse interesse cresceu em 1940 depois que seu marido, Paul Schilder, foi morto por um carro enquanto caminhava para casa após visitar a esposa e a filha de 8 dias de idade no hospital. Lauretta Bender, deixada com três crianças menores de 3 anos para criar, logo ficou dolorosamente interessada em estudar como as crianças lidam com o trauma. Em 1940 ela conduziu um estudo com Reginald Lourie, um médico residente que estava sob sua supervisão, que investigava os efeitos dos quadrinhos em quatro crianças levadas para o Bellevue Hospital devido a problemas de comportamento. Tessie de 12 anos, testemunhou o seu pai, um assassino sentenciado, cometendo suicídio. Ela insistia em chamar-se de Shiera, nome da personagem que é sempre salva do perigo no último instante pelo super herói Flash. Kenneth de 11 anos, havia sido estuprado. Ele ficava fora de si, a não ser que estivesse medicado ou “vestindo a capa do Super-Homem”. Ele se sentia seguro a usando—ele poderia voar se quisesse—e “achava que a capa o protegeria de um ataque”. Bender e Lourie concluíram que as estórias em quadrinhos eram “o folclore desta era”, e funcionavam culturalmente da mesma forma que as fábulas e os contos de fadas uma vez funcionaram.

Mas isso mal deu fim a controvérsia. Em fevereiro de 1943, Josette Frank, uma especialista em literatura infantil, líder da Associação de Estudos da Criança e membro do conselho consultivo de Gaines, enviou uma carta a Gaines lhe informando que mesmo que ela nunca tivesse sido uma fã da Mulher Maravilha, ela achava que deveria se pronunciar sobre as “pitadas sádicas que mostravam mulheres acorrentadas, torturadas etc.” Ela tinha razão. Episódio após episódio, a Mulher Maravilha é acorrentada, atada, amordaçada, laçada, amarrada, agrilhoada e algemada. “Grande cinta de Afrodite!”, grita a Mulher Maravilha em um certo momento. “Eu estou farta de ser amarrada!”

A história por detrás da escrita e edição dos quadrinhos da Mulher Maravilha pode ser recomposta através dos textos de Lauretta Bender, encontrados na Brooklyn College; dos textos de Josette Frank, na University of Minnesota; e dos editoriais e correspondências do Marston, juntamente com um conjunto de roteiros originais, alojados na Biblioteca Dibner do Instituto Smithsonian. Em seus roteiros originais, Marston descreveu cenas de bondage [fetiche sexual através da servidão por imobilização] cuidadosa e intimamente detalhadas com extrema precisão. Para uma estória sobre Marte, o deus da guerra, Marston deu elaboradas instruções ao desenhista Harry G. Peter para um painel no qual a Mulher Maravilha é presa:

“Imagem em plano aproximado da figura de corpo inteiro da MM. Faça aqui um desenho cuidadoso de acorrentamento—os homens de Marte são especialistas! Ponha uma coleira de metal na MM com uma corrente saindo do painel, como se ela estivesse acorrentada na linha de prisoneiros. Faça suas mãos entrelaçadas sobre seu peito com faixas duplas nos pulsos, e com as suas pulseiras de amazona. Entre estas coloque uma corrente curta, algo do tamanho de uma corrente de algemas—isto é o que faz com que ela aperte uma mão contra a outra. Em seguida, coloque outra corrente mais pesada e mais larga entre suas pulseiras que ficará pendurada em forma de um longo laço um pouco acima dos joelhos. Em seus tornozelos mostre um par de braços e mãos, vindos de fora do painel, fechando-se sobre os tornozelos. Este painel inteiro vai perder seu sentido e estragar a história, caso as correntes não estejam desenhadas exatamente como descrito aqui”.

Mais tarde na história, a Mulher-Maravilha é presa em uma cela. Esforçando-se para ouvir uma conversa na sala ao lado, por meio da ampliação de seu “condutor ósseo”, ela pega a corrente com seus dentes: “Imagem em plano aproximado da cabeça e ombros da MM. Ela segura a corrente presa ao seu pescoço com os seus dentes. A corrente fica esticada entre seus dentes e a parede, onde a corrente está presa a um anel de aço”.

Gaines enviou a carta de reclamações de Josette Frank para o Marston. Marston não deu bolas. Foi então que Dorothy Roubicek, que ajudou a editar os quadrinhos da Mulher Maravilha—a primeira mulher editora na DC Comics— também se opôs às torturas a Mulher Maravilha.

“É claro que eu não poderia esperar que a Srta. Roubicek entendesse tudo isso”, escreveu Marston a Gaines. “Depois de tanto dedicar toda a minha vida elaborando princípios psicológicos. A Srta. R. vem trabalhando em quadrinhos por apenas, mais ou menos, seis meses, não é isso? E ela nunca trabalhou na área da psicologia”. Mas “o segredo do fascínio que a mulher sente”, ele disse para Gaines, é que “as mulheres apreciam a submissão—serem amarradas”.

Gaines estava preocupado. Dorothy Roubicek, que também trabalhou nos quadrinhos do Super Homem, inventou a kryptonita. Ela acreditava que os super heróis deveriam ter suas vulnerabilidades. Ela disse a Gaines que ela achava que a Mulher Maravilha deveria ser mais como o Super Homem e, assim como o Super Homem não poderia mais voltar para o planeta Krypton, a Mulher Maravilha não poderia ser capaz de retornar para a Paradise Island, onde as maiores perversões tendiam a acontecer. Então Gaines enviou Roubicek ao Bellevue Hospital para entrevistar a Dra. Lauretta Bender. Em um memorando enviado a Gaines, Roubicek relatou que a Dra. Bender “não acredita que a Mulher Maravilha tivesse tendências masoquistas ou sadistas”. Ela também gostava da maneira pela qual Marston estava brincando com o feminismo, Roubicek relatou: “Ela acredita que o Dr. Marston está lidando de maneira inteligente com todo este ‘experimento’, como ela o chama. Ela acha que talvez ele esteja levando ao público a questão que realmente está em jogo no mundo (e questão a qual ela acha que possivelmente possa ser a causa direta do conflito atual) e que a diferença entres os sexos não é um problema de sexo, nem uma luta por superioridade, mas ao contrário, tal diferença é um problema da relação de um sexo com o outro”. Roubicek resumiu a posição da Dra. Bender: “Ela acredita que o quadrinho não deveria ser tocado”.

Gaines ficou altamente aliviado, pelo menos até setembro de 1943, quando chega uma carta de John D. Jacobs, um sargento do exército dos EUA da 291ª Infantaria, locado no Fort Leonard Wood, em Missouri. “Eu sou um desses homens estranhos, talvez desafortunados, que obtêm um extremo prazer erótico meramente ao pensar em uma linda mulher, acorrentada ou atada, ou usando uma máscara, ou usando saltos extremamente altos ou botas cano alto com cadarço,—de fato, qualquer tipo de constrição ou tensão seja qual for,” escreveu o sargento Jacobs. Ele queria saber se o autor de Mulher Maravilha tinha em sua posse qualquer um dos itens descritos nas histórias, “a máscara de couro, ou o largo colar de ferro do Tibete, ou a algema grega para tornozelo? Ou você apenas ‘sonha’ com essas coisas?”

(Para que fique registrado, Byrne Marston, o filho de Marston e Olive Byrne, um obstetra aposentado de 83 anos de idade, acha que quando Marston falou sobre a importância da submissão, ele falava apenas metaforicamente. “Eu nunca via nada disso em nossa casa,” ele me disse. “Ele não amarrava as mulheres na cama. Ele nunca teria saído ileso de algo assim”.)

Gaines encaminhou a carta do sargento Jacobs para o Dr. Marston, com uma mensagem: “Esta é uma das coisas que eu tinha medo”. Algo tinha que ser feito. Por esta razão ele anexou, para o uso de Marston, um memorando escrito por Roubicek contendo uma “lista de métodos que podem ser utilizados para manter as mulheres confinadas ou contidas, sem o uso de correntes. Cada um desses métodos podem variar de muitas maneiras—nos permitindo, como eu disse a você em nossa conferência na semana passada, diminuir o uso de correntes em pelo menos 50 a 75% sem interferir de modo algum com a emoção da estória ou com as vendas das revistas”.

Marston respondeu a carta de Gaines rapidamente.

“Estou com a bondosa carta do sargento na qual ele expressa o seu entusiasmo sobre o acorrentamento de mulheres—e daí?” Como um psicólogo clínico, ele disse que não estava impressionado. “Um dia eu te farei uma lista de todos os ítens sobre as mulheres que são conhecidos como bem excitantes para diferentes pessoas—cabelos, botas, cintos, artigos de seda, luvas, meias, ligas, calcinhas, as costas nuas”, Marston prometeu. Você não pode ter um personagem feminino de verdade em qualquer forma de ficção sem desencadear as fantasias eróticas de um número grande de leitores. O que é ótimo, eu diria”.

Marston estava certo de que entendia os limites que não poderiam ser ultrapassados. Fantasias eróticas inofensivas são formidáveis, ele disse. “É com as fantasias deploráveis que você deve ter cuidado —as fixações eróticas nocivas, destrutivas e mórbidas—o sadismo real, assassinato, derramamento de sangue, a tortura onde o prazer está na dor real da vítima, etc. Estas são 100 por cento ruins e eu não farei parte delas”. E terminando, ele acrescentou, “Por favor, agradeça a Srta. Roubicek pela lista de perigos”.

Em 1944, Gaines e Marston assinaram um acordo para a Mulher Maravilha se tornar uma tirinha de jornal, agenciados nacionalmente pela King Features. Ocupado com a tirinha de jornal, Marston contratou uma estudante de 18 anos, Joye Hummel, para ajudá-lo a escrever os roteiros da revista em quadrinhos. Joye Hummel, hoje se chama Joye Kelly e completou 90 anos em abril deste ano; em junho ela doou a sua coleção de roteiros e revistas em quadrinhos à biblioteca do Instituto Smithsonian. A contratação de Joye também ajudou Marston com os problemas editoriais. As estórias dela eram mais inocentes do que as dele. Ela datilografava as estórias e as levava para Sheldon Mayer, o editor de Marston na DC e, ela me contou, “Ele sempre aprovava o meu roteiro mais rápido porque eu não os fazia tão sexy”. Para celebrar a publicação nos jornais nacionalmente, Gaines pediu aos seus artistas para desenharem um painel no qual o Super Homem e o Batman, saindo da primeira página de um jornal diário, dizem em alta voz à Mulher Maravilha, que salta para dentro da página, “Seja bem vinda, Mulher Maravilha!”

Mas Gaines tinha um outro tipo de boas-vindas para fazer. Ele pediu que Lauretta Bender tomasse o lugar de Josette Frank no conselho editorial.

Em um anúncio publicado pela agência King Features para persuadir os jornais a comprarem a tirinha da Mulher Maravilha, ressaltando que ela já tinha “dez milhões de fãs leais”, o nome da personagem foi escrito no formato de uma corda.

Escondida atrás dessa controvérsia há uma razão para todas aquelas cordas e correntes, a qual tem a ver com a história da luta pelos direitos das mulheres. Pelo fato de Marston ter mantido sua verdadeira relação com Olive Byrne em segredo, ele também manteve em segredo o vínculo que sua família tinha com Margaret Sanger. Marston, Olive Byrne e Elizabeth Holloway, e até mesmo Harry G. Peter, o artista que desenhou a Mulher Maravilha, foram fortemente influenciados pelos movimentos sufragista, feminista, e pelo movimento de controle conceptivo. E cada um desses movimentos havia usado a corrente como um símbolo central de sua iconografia.

Ilustração da capa do livro Wonder Woman Chronicles #1 (As Crônicas da Mulher Maravilha), uma compilação das estórias em quadrinhos da personagem, publicado em 2010. (Reprodução/Internet)

Em 1911, quando Marston era um calouro em Harvard, a sufragista britânica Emmeline Pankhurst, que havia se acorrentado nos portões de fora da 10 Downing Street [residência oficial e gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido], fez uma palestra naquela universidade. Quando Margaret Sanger enfrentou acusações de obscenidade por suas explicações sobre controle conceptivo na revista Rebel Woman (“Mulher Rebelde”) que ela fundou, uma petição a seu favor que foi enviada ao presidente Woodrow Wilson dizia: “Enquanto os homens estão orgulhosamente de frente ao sol, gabando-se de terem exterminado a perversidade da escravidão, quais as correntes da escravidão estão, estiveram ou jamais poderiam estar tão próximas do terror quanto as correntes presas em cada membro—em cada pensamento—na própria alma de cada mulher indesejadamente grávida?” As sufragistas americanas ameaçaram acorrentarem-se aos portões da Casa Branca. Em 1916, em Chicago, as mulheres representando os estados onde as mulheres ainda não tinham obtido o direito de voto, marcharam acorrentadas.

Na década de 1910, Harry G. Peter fez parte da equipe artística da revista Judge (“Juiz”), onde contribuiu para a página de sufrágio The Modern Woman (“A Mulher Moderna”), que foi publicada de 1912 a 1917. A arte dessa página era feita com mais frequência por outro artista da equipe, uma mulher chamada Lou Rogers. As caricaturas sobre sufrágio e feminismo feitas por Lou Rogers muitas vezes apresentavam uma mulher alegórica rompendo suas correntes ou amarras. Margaret Sanger contratou Rogers como diretora de arte da Birth Control Review (“Revista de Controle Conceptivo”), revista que Sanger lançou em 1917. Em 1920, em um livro chamado Woman and the New Race (“A Mulher e a Nova Raça”), Sanger argumentou que a mulher “tinha se acorrentado ao seu lugar na sociedade e na família, através das funções maternas de sua natureza, e que somente correntes fortes como aquelas poderiam ter ligado ela ao seu destino de animal reprodutor”. Em 1923, uma ilustração encomendada por Rogers para a capa da ‘Birth Control Review’ retratava uma mulher enfraquecida e desesperada, caída de joelhos e acorrentada pelo tornozelo a uma bola de ferro que carregava os dizeres, “BEBÊS INDESEJADOS”. Ainda, uma mulher acorrentada inspirou o título do livro de 1928 de Sanger, Motherhood in Bondage (“Maternidade em Cativeiro”), uma compilação de algumas das milhares de cartas que recebeu de mulheres pedindo-lhe informações sobre controle conceptivo; ela descreveu as cartas como “confissões de mães escravizadas”.

“As formas de restrição usadas na Mulher Maravilha foram um eco da iconografia usada pelas antigas sufragistas. Na esquerda, a feminista Margareth Sanger protesta contra a censura. Do lado direito, uma charge feita por Lou Rogers” (Smithsonian Magazine). (Imagens:Reprodução/Internet)

Quando Marston criou a Mulher Maravilha, em 1941, ele contou com o legado e com a inspiração de Margaret Sanger. Mas ele estava determinado a manter segredo sobre a influência de Sanger na Mulher Maravilha.

Ele levou aquele segredo para o túmulo ao morrer em 1947. A maioria dos super-heróis não sobreviveu o período de paz após a Segunda Guerra Mundial, quando um psiquiatra chamado Fredric Wertham publicou o livro Seduction of the Innocent (“Sedução do Inocente”) e testemunhou frente ao subcomitê que investigava as revistas em quadrinhos no Senado. Wertham acreditava que os quadrinhos estavam corrompendo as crianças dos EUA, e tornando-os delinquentes juvenis. E ele tinha uma aversão especial em relação à Mulher Maravilha. A Dra. Lauretta Bender tinha escrito que a revista da Mulher Maravilha exibe “um conceito surpreendentemente avançado de feminilidade e masculinidade” e que “as mulheres nestas estórias são colocadas em pé de igualdade com os homens e desfrutam do mesmo tipo de atividades”. Mas Wertham considerou o feminismo da Mulher Maravilha como repulsivo.

“Em relação à ‘avançada feminilidade’, quais são as atividades nas revistas em quadrinhos nas quais as mulheres desfrutam em pé de igualdade com os homens?’ Elas não trabalham. Elas não são donas-de-casa. Elas não cuidam de uma família. O amor materno está inteiramente ausente. Mesmo quando a Mulher Maravilha adota uma menina, há insinuações de lesbianismo,” Wertham disse. A Dra. Bender também testemunhou na audiência do Senado onde ela afirmou que se há algo ruim para as meninas na cultura popular americana, este algo não seria a Mulher Maravilha, mas sim o Walt Disney. “As mães sempre são mortas ou enviadas para o hospício nos filmes do Walt Disney,” ela disse. Mas este argumento da Dra. Bender não foi levado em consideração.

Os documentos de Fredric Wertham, alojados na Library of Congress (Biblioteca do Congresso), foram disponibilizados a pesquisadores somente em 2010. Tais documentos sugerem que a antipatia que Wertham sentia em relação a Dra. Bender tinha menos a ver com o conteúdo dos quadrinhos do que com uma rivalidade profissional. (Paul Schilder, o falecido marido da Dra. Bender, foi o chefe de Wertham durante vários anos.) Dentre os documentos de Wertham há um pedaço de papel com uma lista compilada por ele com o título “Especialistas Pagos pela Indústria de Quadrinhos Posando de Acadêmicos Independentes.” A primeira na lista de lacaios número um da Indústria de Quadrinhos era a Dra. Bender, sobre a qual o Dr. Wertham escreveu: “Gabou-se em privado de como ela cria os seus 3 filhos com dinheiro oriundo das revistas em quadrinhos de crime”.

Seguindo as audiências do Senado em 1954, a DC Comics removeu a Dra. Bender de seu conselho editorial, e a Comics Magazine Association of America (Associação de Revistas em Quadrinhos da América) adotou um novo código. Sob os termos da associação, as revistas em quadrinhos não poderiam conter nada cruel: “Todas as cenas de horror, derramamento de sangue excessivo, crimes sangrentos ou horríveis, depravação, luxúria, sadismo, masoquismo, não serão permitidas”. Não poderia haver nenhuma bizarrice sexual: “Relações sexuais ilícitas não podem ser insinuadas nem retratadas. Cenas de amor violentas, bem como anormalidades sexuais são inaceitáveis”. E não poderia haver nada não convencional: “O tratamento das estórias de amor-romance deve enfatizar o valor do lar e da santidade do casamento”.

“Aniversário, o qual nós esquecemos completamente”, escreveu Olive Byrne em seu diário secreto em 1936. (O diário permanece em posse da família.) Durante os anos em que viveu com Marston e Elizabeth Holloway, Olive usou, ao invés de um aliança, um par de braceletes. A Mulher Maravilha usou aqueles mesmos adornos em seus pulsos. Olive morreu em 1990 aos 86 anos de idade. Ela e Holloway viviam juntas em um apartamento em Tampa, na Flórida. Enquanto Olive estava no hospital, morrendo, Elizabeth sofreu uma queda e quebrou o quadril; ela deu entrada no mesmo hospital onde Olive estava internada. Elas ficaram em quartos separados. Elas viveram juntas por 64 anos. Quando Elizabeth, em sua cama no hospital, recebeu a notícia de que Olive tinha morrido, ela recitou um poema de Tennyson: “Estrela do crepúsculo e da noite, / E um claro chamamento por mim! / Que da margem não me chegue pranto, / Quando eu partir para o mar”. Nenhum jornal publicou um obituário para Olive.

Elizabeth Holloway Marston morreu em 1993. Um obituário foi publicado no New York Times com a seguinte título, “Elizabeth H. Marston, inspiração para a Mulher Maravilha, 100 anos idade”. Esta foi, na melhor das hipóteses, uma meia-verdade.

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Jill Lepore é professora de História dos EUA da Harvard University e autora, dentre outros, do livro The Secret History of Wonder Woman (A História Secreta da Mulher Maravilha), lançado em outubro deste ano.



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